CABOVERDIANO É RACISTA

Foi com conhecimento de causa e nenhuma surpresa que li esta semana inúmeras barbaridades, inúmeros comentários tristes e deploráveis sobre a notícia da morte do nosso conterrâneo Sócrates (jornal ASEMANA – numa matéria amadora e pseudo-jornalista de Susana Rendall Rocha), reveladores do quão racistas são muitos dos nosso patrícios, armados em grande, quando não têm noção do quão pequeno aparentaram com este episódio (é, é, já sei… acabei de ferir o orgulho besta de alguns não é?).
Quem nunca ouviu o Caboverdiano dirigir-se aos Africanos do continente (os africanos pretos e não os africanos brancos…) como sendo um só, ou seja, “mandjacos”? – Este é apenas um de muitos exemplos.

Quantos Caboverdianos terão interesse em saber que devem haver pouquíssimos mandjacos (etnia ou povo, que é parte integrante da Nação Guineense onde existem também: Pepel, Balanta, Mandingas, Fulas, Djakanka, Oïnka, Felupe, Mankanhe, Bijagós, Biafada, Sussu, …) em Cabo Verde, e esses que assim chamam têm nome, país, etnia própria e que merecem o mesmo respeito que exigimos do portugueses?

Pois é minha gente, sou Caboverdiano, mas não sou hipócrita, e por este facto afirmo, com plena convicção:
CABOVERDIANO É RACISTA.

Dos muitos que publicaram aquela notícia no Facebook, ou dos que comentaram no próprio jornal, pouquíssimas foram aqueles que tiveram a dignidade de mostrar dúvida em relação a matéria, já que, nem sequer tinha sido revelado a autópsia e muito menos tinha-se ouvido o outro lado da moeda, ou seja, o suposto hospital que não o terá atendido. Estranho não é?

Pois, para mim não há nada de estranho nisso. Esta notícia serviu apenas para mostrar o lado ruim, egoísta, vaidoso, xenófobo, racista e muitas outras atitudes reprováveis dos nossos patrícios, que eu pessoalmente já tinha noção.

Claro que sei que no meio de tantos racistas em Cabo Verde (muitos conhecidos meus, até familiares…), existem muita boa gente, super amáveis, acolhedores, pouco ou nada egoístas, de coração enorme, porém, também sei que o mal sempre sobrepôs ao bem, portanto, estes são uma minoria em Cabo Verde, tal como o são em Portugal.

Tanta vez já se ouviram patrícios nossos com dificuldades em assumir serem AFRICANOS? O pior é que esta dificuldade é exactamente pela cor da pele, por pensarem que África é constituída apenas por negros, pobres e sujos, ou pelo facto de desconhecerem a riqueza do nosso continente (“se não for rico, fino, lindo, puro… não quero, não é igual a mim“).
A nossa bazófia não ia permitir-nos misturar com “aquele povo”, porque somos mais parecidos com os brancos da Europa… Tanta ignorância e pequenez.

Portanto, quando vejo Estudantes Caboverdianos escreverem:

“Eu já não gostava de portugueses, com isto passei a gostar menos ainda”

…e a opinião do imigrante Guineense em Cabo Verde, qual seria???? E o senegalês??? Tenham Santa paciência.

ou, 

“Se fosse em Cabo Verde, o tratamento era outro”

Esse bom tratamento deve-se a 2 razões: 1, porque o lado pequeno do Caboverdiano o faz pensar que o branco é mais do que ele – pobreza de espírito – logo deve-lhe servidão; 2, porque o lado grande do Caboverdiano (o lado do bem) o faz pensar que o correcto é tratar bem as pessoas, e que não se deve responder a um erro com um mesmo erro. Este é o meu lado.

Eu, pessoalmente, não devo nada a Portugal, nem Portugal deve nada a mim. Cabo Verde foi outrora importantíssimo para Portugal na expansão marítima, hoje Portugal é útil para Cabo Verde em N coisas, portanto, somos todos iguais e ninguém deve nada a ninguém. Façam o bem para poderem exigi-lo em troca!
Para terminar, deixo um apelo:

 “Se o seu telhado é de vidro, não jogue pedras no telhado do vizinho!”

Délio Leite (Déy)

About plurim

Criado para relembrar, reabilitar, recuperar, redescobrir o nosso concelho da Ribeira Grande, Ilha da Santo Antão, Cabo Verde, este blogue terá como propósito enobrecer, por mérito próprio, aquele que nos viu nascer, crescer e tornar em mais um valor nacional, reconhecidos por prós, ignorados por contras. "Quanto maiores são as dificuldades a vencer, maior será a glória." Ver todos os artigos de plurim

10 responses to “CABOVERDIANO É RACISTA

  • preto di guetto

    eu sou contra racismo. essa palavra me doi, mesmo nao sendo eu vitima do racismo. mais, eu sou vitima.

    • Paty

      Prezado, Desculpa descordar de ti, primeiramente nós caboverdianos, digo “nós”esperando que sejas caboverdiano, chamamos todos os africanos de “mandjaku” pq na época em que estes chegaram a CV a maioria veio desta etnia com o tempo essa denominação abrangeu-se a todos que da Africa viriam, com tempo, concordo tornou-se um nome pejorativo, porém não cabe destaca-lo como sendo racismo. Recentemente uma aluna caboverdiana que estudou antropologia defendeu a dissertação explicando essa relação dos caboverdianos com os chamados “mandjacu “te aconselho a ler, basta entrar no site da unicv e procurar esse tema que o encontrarás. Por séculos, durante a colonização dos países PALOPs, os portugueses deram um tratamento diferente aos caboverdianos em relação aos demais, daí vem a dita superioridade do povo de CV em relação aos demais. Quanto ao racismo considerado uma palavra muito forte para designar o que certos indivíduos caboverdianos fazem, talvez complexo de superioridade entre os adjetivos para qualificar certas atitudes, porém não racismo. No Brasil metade da população é negra, muitos por desinformação tb renegam ou melhor dizendo se negam em assumir como preto ou negros, mas isso não é racismo mas é resposta a tudo que se viveu e se vivi, com os caboverdianos não é mt diferente, é muito ignorância chamar um povo cuja maioria são negros (pretos e pardos) de racistas, antes de escrever tal texto seria conveniente se informar, estudar e conversar com pessoas que estudam o assunto de modo a tentar repassar uma informação com qualidade e que realmente apresente a realidade e não uma suposição.

      • plurim

        Ignorância para mim é não chamar as coisas pelos nomes. Se para si não é racismo, isto é consigo e com aqueles que estudaram e descobriram tal como eu descobri quando estudei, que isto é racismo.
        Obrigado pela partilha do seu conhecimento, porém não acrescentou nada, porque tudo o que disse não é novidade para mim. Porém, não defendo o que é meu, quando sei que este não merece tal defesa.
        Não sejamos cegos pela nossa conveniência, caso contrário os ditos “estudos” tão o serão… ou seja, conforme nos convir “estudar”.

  • Anónimo

    eu sou cabo verdiano e tenho orgulho

  • blog35

    O racismo é um tema do qual foge muita gente.Aliás já falei isso com alguns colegas jornalistas ou amigos vê-se que é um tema que se quer evitar.
    Cada um arranja a sua “máscara” para não enxergar a realidade do jeito que ela é.
    Há algum tempo atrás publiquei no meu blog um texto (da minha autoria) sobre a forma como encaramos o racismo na sociedade cabo-verdiana.
    Nem sempre é fácil colocar o dedo nas feridas, pois doem.E este papo de frontalidade é só conversa para bói dormir.

    Cada um arranja o seu “esconderijo” e lá se esconde. Penso que nesta questão do racismo é preciso mais esclarecimento, mais informação e mais instrução para mostrar às pessoas que a capacidade de cada um não está condicionada à cor da sua pele. Tem um artista que cantou: “It Doesn’t Matter If You’re Black Or White”. Seria bom se esta refrão pudesse fazer efeitos positivos na nossa realidade.

  • Santos Júnior

    Olá Délio
    Acabei de ler o seu artigo e, faço-lhe a vénia! Concordo plenamente contigo e oxalá que muita gente pensasse assim. Não sou caboverdiano, mas sou africano e consigo viver in loco o racismo quer de um lado quer do outro. Porém, nunca me deixei abater. Todos aqueles que se agarram em atitudes pré-históricos, com mania de grandeza quanto, ao contrário, provam o contrário, não passam de gente ínfima com uma mentalidade tacanha. Continue a pensar assim e tente, sempre que pode, expressar este sentimento para que muitos atrasados aprendam algo consigo. Ah, GRANDA artigo!

  • Sara Camões López

    Caro Délio Leite. Li o seu artigo, e não posso deixar de comentar. É verdade que o caboverdiano é racista (deixando aqui claro que não se pode generalizar, quer estejamos falando do caboverdiano, quer estejamos a falar de outro povo qualquer), o povo português também o é, e digo isto com conhecimento de causa. Não sabendo o que de facto se passou nesse hospital (só sei o que foi publicado na internet), não posso dar mais opiniões, mas isso é um facto: não se nega assistência médica a ninguém.Não acho que este triste acontecimento, que terminou com a morte de um conterrâneo nosso possa ser classificado de racismo, mas sim de má política para com os estrangeiros, ou até de má prática do hospital.
    Uma outra coisa que lhe gostaria de dizer é que, apesar de você ter a sua liberdade de expressão, e de poder emitir uma opinião em relação ao que quiser, não acho correcto que, no seu artigo, em que diz coisas que de facto são verdadeiras, venha chamar à pessoa que fez o artigo da «A Semana» de “amadora e pseudo-jornalista”. Não é correcto da sua parte, e não lhe cabe a si classificá-la de amadora ou profissional. Você pode comentar o trabalho da dita jornalista, criticá-lo até, mas não pode por em causa a formção da dita jornalista, e muito menos escrevê-lo assim num artigo que na realidade nada tem a ver com a dita jornalista!
    Com os melhores cumprimentos,
    Sara Camões López

    • plurim

      Cara Sara,

      Peço desculpas, mas não concordo com o que disse.
      1 – Não, não generalizei, até porque sou Caboverdiano e não me considero racista. Aliás, a generalização dos comentaristas com o acto de uma pessoa, num único hospital é que me fez fazer este artigo.
      2 – Nunca disse que o racismo esteve presente no facto de terem negado assistência, muito menos porque o triste acontecimento terminou na morte de alguém. Tenha atenção no conteúdo geral do texto, para não correr o risco de me interpretar mal. O que disse foi que, este acontecimento acabou por servir para os Caboverdianos revelarem o lado racista nos inúmeros comentários triste que se viram estes dias, inclusive, muitos deste comentários falam do facto da negação de atendimento ter sido relacionada com o racismo Português (não que não haja, mas que como disse, não podem generalizar a partir do acto de uma única pessoa).
      3 – Sendo eu Caboverdiano e querer ver o meu país melhor do que ontem, quando vejo um péssimo jornalismo, sou obrigado a criticá-lo, e criticá-lo não é passar a mão na cabeça do jornalista. Se a Sara não se importar, pedia-lhe que me sugerisse uma forma melhor de o fazer, mostrando exemplos, para que eu possa também crescer com a sua crítica construtiva!
      Portanto, se no meu entender se tratou dum péssimo exercício da sua profissão, vou sempre dizê-lo porque a minha postura social não me permite ser passivo, muito menos ainda conformista (por estas e por outras que estamos como estamos. Deixamos uma minoria atropelar uma maioria por falta de pulso desta). Quando alguém publica num jornal um notícia baseada em publicações do Facebook (classifica-me isto por favor!), cheia de especulações e ainda por cima não teve a dignidade de ouvir ou tentar ouvir a outra parte da história, quer que eu lhe chame como?
      Sou arquitecto, e digo-lhe: Se algum dia for tão evidente que exerço pessimamente a minha profissão, pode classificar-me de amador e pseudo-arquitecto, porque corresponderá a verdade e nada mais do que isso. Oiço a sua crítica e humildemente passo a esforçar-me e melhorar para o bem de todos.
      Como disse a Sara,isto não fere nem a minha liberdade de expressão, muito menos o meu direito de opinar sobre o que eu acho certo ou errado e nem sequer deixa de ser correcto o facto de classificar de amador o trabalho da jornalista. Esta matéria, tal como muitas no nosso mundo contemporâneo, apenas mostra que o fundamento do bom jornalismo desapareceu. Hoje se faz jornalismo para vender jornais, gerar views nos sites, forçar aumento de audiências… enfim, tudo ao contrário da sua essência que é levar a informação verdadeira ao receptor. O artigo do “ASEMANA”, está repleto disso, logo…

      Saudações,

      Délio Leite

      • Anónimo

        eu nao sou rasista nunca fui .sou humano somos ser humanos ,quem nao aseita humano como ele tem que ser criticado ate aseitar a realidade da humanidade,senao que se afastam do ser humano

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