A Mentalidade do Santantonense

Outro-dia, conversando com um grande amigo, fiz a seguinte constatação:

– O Santantonense tem a fama de ser humilde demais e, por isso, somos uma das ilhas que menos beneficia dos recursos do Governo Central (estamos no último lugar no quesito prioridades). Talvez por essa razão somos a ilha mais pobre do país (segundo dados do INE).

Pode ser que eu esteja errado, ou que você tenha outra visão acerca do assunto mas, essa é uma realidade visível! Isto porque, como dizemos no nosso querido crioulo, “ Nô tem mania de contentá que pôc”.

Pra uma ilha que quer sair do “fosso do abismo”, essa mentalidade é reprovável!

Porque será que a Ilha de Santiago está liderando essa “corrida”? Porque será que a Economia da Ilha de Santiago é mais “avançada” que a Economia do nosso querido Santo Antão? Será porque eles pensam diferente de nós? Ou será que é apenas um mero resultado do destino?

Uns devem estar a pensar que isto acontece porque, Santiago é a maior ilha do país, portanto, com um maior mercado consumidor. Outros devem estar a pensar que isso acontece porque ela é a ilha que mais atrai projectos de investimentos no país, ou por ser a capital e, portanto, por sediar o Governo Central. Outros devem estar a culpar essa política concentradora do nosso Governo.

Não que estejam errados mas, isso acontece porque, primordialmente, eles pensam de uma forma diferente da nossa! Eles têm uma mentalidade de “querer cada vez mais”. E eles exigem o suficiente pra que isso aconteça!

Sei que pode haver controvérsias com essa minha constatação mas, a mentalidade, a ideologia e a atitude, são factores que podem decidir o rumo da Economia de uma dada comunidade.

Caro Santantonense, hora de mudar a nossa mentalidade chegou! Justamente agora que o nosso país enfrenta desafios! Um deles é por sermos um país de desenvolvimento médio. Outro é por estarmos em crise! Precisamos dessa atitude e, sobretudo, criar novas ideias para que possamos enfrentar os obstáculos e progredir a Economia nacional e regional.

Temos potencial pra isso! Somos ricos em recursos como; recursos hídricos, terras de cultivo (sequeiro e regadio), bens agrícolas, segurança, turismo (principalmente o rural), ecoturismo, jovens talentosos…somos uma ilha vasta!

Tomemos a atitude de querer e exigir cada vez mais a infra-estruturação da ilha (e tem de ser de qualidade). Isto porque, a infra-estruturação gera investimentos horizontais e, com isso, suprir a carência de projectos, um dos factores para o nosso “atraso”.

A incidência de tributos e contribuições do Governo é a mesma em todas as ilhas. Portanto, pagamos o mesmo imposto!

“Querer e exigir cada vez mais”. Essa é a nova ordem, essa é a nova mentalidade que precisa ser adoptada!

Corajoso de Santo Antão, posso contar consigo?

Carlos Bentub

Economista

About plurim

Criado para relembrar, reabilitar, recuperar, redescobrir o nosso concelho da Ribeira Grande, Ilha da Santo Antão, Cabo Verde, este blogue terá como propósito enobrecer, por mérito próprio, aquele que nos viu nascer, crescer e tornar em mais um valor nacional, reconhecidos por prós, ignorados por contras. "Quanto maiores são as dificuldades a vencer, maior será a glória." Ver todos os artigos de plurim

5 responses to “A Mentalidade do Santantonense

  • bcneves

    Olá a todos,

    Segui com atenção o artigo e os respectivos comentários ((gostei imenso)

    Délio, sobre a questão dos recém-licenciados, estou em parte de acordo contigo mas é preciso relativizar. No meu caso, por exemplo, o meu maior desejo era estar neste momento com a minha casinha (isto mesmo casinha, não mansão) lá na minha querida Ribeira da Tore, no meio de bananeira e cana sacarina, te culvá nhe pé d’batata inglesa, nhe repolho, nhes 2 pê d’cenoura, nhe cebola… enfim, artigos que sou obrigado a comprar num mercado qualquer desta cidade.
    Logo após a minha formação não tive na minha ilha as oportunidades que tenho na Praia. É claro que temos de ser pró-activos, empreendedores e tenho esta consciência, mas, depende de múltiplos factores, e muitos deles não dependendo apenas de nós. Não quero ser advogado do Diabo, sei muito bem dessa mentalidade gananciosa que se apoderou da nossa juventude e sou bastante crítico neste sentido, mas também há outros casos em que simplesmente faltam alternativas, porque, como disse o articulista, ficamos na cauda das prioridades.

    Não posso deixar de concordar também com Fliss quando fala da cultura de mão estendida. Isso sim, está a corroer a nossa ilha. É triste ver gente com o seu emprego, gente com capacidade intelectual a viver nessa cultura do sim senhor, do (falso) coitadismo, do mim nunca bo dé’m nada. Sinto que há um laxismo, um deixa passar, uma atitude acrítica que tomou conta da nossa população (ribeiragrandense em particular) que mete dó.

    Abraço d’un riberégréndense ausente mas tentando estar sempre presente.

    • Dey

      Caríssimo,
      Concordo contigo também em parte. Quando falei do recém-licenciado, generalizei sim, porque quis focalizar e dar maior ênfase à um dos problemas fulcrais – o capitalismo. Claro que não são todos e tal como eu, considero-te um exemplo a seguir, porque mesmo longe, os teus actos têm mostrado um forte sentido e preocupação com a nossa Ilha.
      Portando, considero-te um aliado nesta luta para “tirar Santo Antão do buraco”.

      Abraço,

      Déy

  • Benson Delgado

    Pois carlos…a razão fala por si só, de facto o que consta na sua publicação é uma terça parte do não desenvolvimento da ilha de S.Antão,ora vejamos,S.Antão é a ilha de C.Verde com melhores recursos a Prática agricula,a pesca,criação de gado,recursos naturais das quais podemos e deviamos aproveitar…mas…fazer o que o que consta é que a mentalidade do Santantonense é inclinada na perfeição do outro e não do EU,ou seja, preocupamos mais com os outros do que com nós proprios e essa é a base do que se deve e pode mudar,devemos pensar primeiro em nós e não no que os outros possam pensar de nós,teremos que ser criativos deixar com que as ideias que se desenrolam nas nossas cabeças possam ser postas em práticas e assim talvez dessa forma de uma pequena ideia ou de uma dita loucura da mente nascer raciocinios que nós possam levar a alcançar os nossos vizinhos S.vicente ou Santiago.
    ainda vejamos que existem muitos jovens talentosos em SA que tem receio de divulgarem seua ideias devido a uma sociedade cheia de mentalidades ultrapassadas,anarquistas,anti.democráticas que nós levam ao abismos e que não nós deixam evoluirem e crescermos,e onde os Fás do “MANDA BOCA” são aqueles que menos fazem para o seu e os nossos desenvolvimento como cidadãos e como Ilha.Otra coisa politicamente somos generalizando uns anti-desenvolvimento,onde ainda existe uma mentalidade de politiquisse fora dos termos em pleno sec XXI da qual limitamos a ficar no sub-mundo da Ignorancia em não darmos chances de nova gente,novas caras darem algum contributo POSITIVO a R.Grande ou a S.Antão,mentalidade que preciste mais a nivel das chamadas COSTAS LESTE…que por si só representam grande maioria dos anti-democráticos colocando sempre a carroça a frente dos boys no que toca a politica adoptada por essa gente(o que não acontece no mindelo ou na Praia,onde as pessoas mudam sempre para o melhor).Para terminar mostrar a minha Indignaçao no que diz respeito a Ajudas EXternas que Puro e Simplimente não passam da ILHA DE SANTIAGO,apoios de paises EUropeus Asiaticos Americas etc Nunca ou Raramente chegam em S.Antão a sempre um PAUZINHO do outro lado a mexer a favor da PRAIA(ex:enviaram alguns automoveis da Luxembourg para SA mais primeiramente passaram pela Praia e da Praia Ficaram com Ou AUTOMOVEIS NOVOS E enviaram os VELHOS…afinal…em que ficamos…LIXEIRA quizeram nos chamar,como podemos dessa forma dar um passo a nivel de progresso se ELES tem O BIFE e Nós O PAU E AINDA NÒs TIRAM O NOSSO PAU PARA JUNTAR AO SEU BIFE?COMO?repito,COMO? AQUI VAI UM POUCO DE MUITAS COISAS DAS QUAIS APTECE-mE FALAR

  • Dey

    Caríssimo,

    Tal como referi num comentário ao teu artigo no jornal Liberal, o reconhecimento que outrora o Santantonense ostentava, como sendo um grande trabalhador, responsável,pacifico, hoje não se aplica de todo. Porquê?
    A cultura evolui, logo muitas mudanças acompanham esta mesma evolução, tanto negativas como positivas, portanto, o que o Santantonense foi outrora, já não o é hoje.
    Sou de acorcordo porém, que a “assimetria regional no que tange ao desenvolvimento económico(não cultural) é fruto sim da elevada concentração de recursos em Santiago e a enorme centralização do poder…” (como diz o comentarista teobaldo, no mesmo jornal), mas não posso concordar que esta assimetria não seja devida ao demérito da população de Santo Antão, em particular. Se não vejamos:
    – Alguém sabe me dizer qual a ideologia do “novo” Santantonense (recém-licenciados – também eu sou recém-licenciado,), por exemplo? Posso garantir que, pelo menos no meio que convivo(e após muitos relatos dos próprios, ao contrário de mim), que não pensa trabalhar em Santo Antão, nem ao menos tentar, porque “Praia ê que ti tá dá dnher”.
    – Portanto, engana-se aquele que pensa que o Santantonense de outrora é o mesmo de hoje. O egoísmo apoderou-se dos nossos jovens, não porque a centralização permitiu, mas sim, porque eles mesmos permitiram ser lavados cerebralmente por essa ganância de puder da nossa sociedade actual. Um mundo capitalista e globalizado (onde a imagem/aparência é mais importante do que a qualidade, ou a tal essência de águia do Santantonense de outrora), só uma mentalidade forte o consegue suportar. E neste aspecto, estou de acordo com o Carlos.
    – Sabem quantos empresários de Santo Antão, que abandonaram a ilha para investirem noutras ilhas (vários casos de sucesso), se prontificaram em regressar a ilha aquando do aumento dos seus volumes de negócio e consequente crescimento das suas empresas??? Se souberem de um, diga-me porque desconheço. Acredito sim, que vão voltar, mas só quando outro santantonenses corajoso, de mentalidade diferente, os prepararem correctamente o terreno, retirarem todos os “cacos de vidro” do chão e ainda emprestar-lhes botas de biqueira d’aço para evitarem machucar os pés. Aí sim, voltam.

    Saudações,

    Délio Leite (Déy)

  • Fliss

    Meu caro amigo!
    Bem haja o seu exercício de cidadania.
    Li atentamente o texto gostei na plenitude.
    Permita-me dizer o seguinte:
    O Povo santantonense outrora um Povo humilde e trabalhador.
    Uma vez era um orgulho vestir-se bem, montar num cavalo , mula ou mesmo a pé conforme as possibilidades de cada um rumar as repartições do Estado para honradamente pagar os impostos devidos.
    Hoje substituímos essa atitude por uma outra que tem contribuído para que Ribeira grande seja a cauda.
    A cultura da mão estendida, substituiu o trabalho honesto e digno e nisso há um único culpado o poder local democraticamente instituído.
    Em vez de dar peixe para comer deve-se ensinar a pescar. É um proverbio Chinês mas assenta-se bem a nossa realidade.
    Como Ribeira-grandense sinto vergonha quando vejo as estatísticas mostrando o nosso Concelho na cauda de quase tudo.
    Um Concelho rico em recursos humanos e de recursos naturais(um potencial por explorar) ,somente com outros atores políticos e outras politicas locais podemos sair desse marasmo que nos encontramos mergulhado há vinte anos.
    Cada povo tem governo que merece e nós temos o que temos porque merecemos.
    Ora de uma lufada de ar fresco para Ribeira grande.
    SHALOM para todos os meus amigos, que quer dizer Saúde Humildade,amor,Liberdade, Obediência e Misericórdia

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