Geração à Rasca ou Crise de Valores???

A CULPA É DE TODOS NÓS

Este texto refere-se a situação que Portugal vive recentemente, mas serve de alerta a sociedade Cabo-verdiana em Geral. Se deres conta de alguma semelhança com a nossa (eu vi várias), é sinal que, se não mudarmos os nossos hábitos agora, este também será o nosso triste futuro.

“Mais vale cortar o mal pela raiz”.

“O Pior cego é aquele que teima em não querer ver”

Délio Leite


EIS O TEXTO:

Existe uma geração à rasca?

Existe mais do que uma! Certamente!

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.

Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações. A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.

Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência. E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, a minha geração e as seguintes (actualmente entre os 30 e os 50 anos)  vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor. Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos…), mas também lhes deram uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão, cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse. Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos cama, mesa e roupa lavada.

Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor; o dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo. E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego,… A vaquinha emagreceu, feneceu, secou. Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.

Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ter de dizer “não”. É um “não” que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que por isso eles não suportam, nem compreendem, porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas, porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

– Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.

– Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou. Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

– Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum. Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada; uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

– Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso. Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento. Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.

– Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

– Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.

– Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.

– Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

 

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração?

Claro que há. Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos! Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).

Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares a que alguns acham ter direito e que pelos vistos – e a acreditar no que ultimamente ouvimos de algumas almas – ocupamos injusta, imerecida e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.

Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.

Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.

A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.

Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?


AUTOR DESCONHECIDO

About plurim

Criado para relembrar, reabilitar, recuperar, redescobrir o nosso concelho da Ribeira Grande, Ilha da Santo Antão, Cabo Verde, este blogue terá como propósito enobrecer, por mérito próprio, aquele que nos viu nascer, crescer e tornar em mais um valor nacional, reconhecidos por prós, ignorados por contras. "Quanto maiores são as dificuldades a vencer, maior será a glória." Ver todos os artigos de plurim

2 responses to “Geração à Rasca ou Crise de Valores???

  • Anónimo

    Muito bem Déy um tema muito actual, nunca é demais trazer esse assunto para debate e reflexão.
    Como jovem ja adentrado na fase da madureza,sabendo que nós como ser humanos nessa vida passamos por quatro etapadas fundamentais, a saber:infancia,juventude, madureza e a velhice.
    A madureza,segundo os entendidos começa aos 40 anos, e é nessa etapada em que me encontro.
    Posso dizer por exeperiencia própria, que concordo plenamente com o artigo,e na qualidade de Pai assumir uma percentagem da culpa, embora os Pais que estão dentro dessa percentagem dos culpados a meu ver fizeram-no no sentido de dar melhor aos filhos, mas infelizmente os filhos não entenderam nada do posicionamento dos Pais.
    Agora dando a minha opnião pessoal diria que nunca,mas nunca nenhuma geração teve tantas facilidades cmo essa geração de hoje em dia.
    Concordo plenamente com os comentarios do amigo NIKIN.
    O que está a faltar a essa geração é ausadia, garra, espirito de sacrificio, e empenho.
    Temos que ir a luta, a vida é assim não podemos ficar a espera que tudo aconteça temos que fazer acontecer.
    Sou da geração,que catava lenha, comida de bitchos(pastos para animais)carregar agua na cabeça de Mão para traz até sinagoga, balaio de pão na cabeça da Ponta do sol para Sinagoga mas nao desisti, e estou aqui.
    Sou da geração dos que estudavam em S.Vicente no meio de sacrificios,por dia tinhamos uma caneca de agua de um litro para lavar antes ir a escola,mas não desistimos, banho era somente nos fins de semana.
    Agora a nossa juventude tem Liceus no ao da casa agua canalizada 24 horas por dia, electricidade 24 h dia televisão, internete,tudo do bom e do melhor e ainda essa geração está arasca?!!!
    Então a minha geração a dos meus Pais e bisavós como é que estiveram?
    Mas tenho que dizer que existe gente boa nessa geração de muito valor de dicacção e empenhada gente batalhadoras e bons profisisonais e sobretudo muito criativos e inovadores, todos nao podem ser medidos pela mesma bitola.
    Deixo essas poucas palavras para refleção dos jovens sobertudo os do meu Concelho Ribeira grande para verem que é preciso lutar para vencer.
    As oportunidades de hoje são melhores do que os de ontem,então jovens aproveitam e sejam uteis a sí e, a comunidade e ao País inteiro.
    Mãos a obra.

  • Anildo Santos (Niquim)

    Gostei muito do artigo, os meus parabens amigo Déy. Mas aproveito a oportunidade para acrescentar mais, geração de cabeça oca, défice de valores, pouca pro-actividade e dinamismo, sem prisão psíquica dos valores que enaltece a identidade, lei de menor esforço, cultivando a compaixão em vez do altruísmo.
    AS

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