Entrevista ao Presidente da Associação de Basquetebol de Santo Antão – Adelino Fortes

Adelino Rodrigues Fortes

O “plurim” entrevistou o recém-nomeado para o cargo de presidente da Associação Regional de Basquetebol de Santo Antão, Adelino Rodrigues Fortes, da qual deixamos aqui para os nossos leitores analisarem e comentarem.

Plurim – Quem é Adelino Rodrigues Fortes?

Adelino Rodrigues Fortes – Antes de mais, boa tarde, obrigado pela convite e os meus parabéns pelo blogue, por aquilo que pretende contribuir na evolução da nossa ilha.

Portanto, sou Recém-Licenciado em Design no Brasil, amante do basquetebol e pertencente a dita “geração de ouro” deste desporto nessa Ilha.

P – Como e quando foi eleito Presidente da Associação?

A.R.F. – Foi durante assembleia realizada no concelho do Paúl, no dia 18 de Dezembro, se não estou em erro, mas ainda não assumi o cargo porque aguardo a prestação das contas da anterior direcção.

P – Como se sente em relação ao cargo que agora ocupa?

A.R.F. – Um pouco pessimista.

P – Porquê?

A.R.F. – Em primeiro Lugar, não há um fundo de manejo, câmaras e federação não ajudam como deveriam. Exemplo disso foi um cheque passado pela federação Cabo-verdiana de Basquetebol, que até hoje não foi levantada, por estar sem fundo. A federação distribui subsídios para o transporte sem ter em conta a diferente realidade das ilha, pois, aqui em Santo Antão, deslocar-se entre o Porto Novo e a Ribeira Grande (36km de montanhas) são 7.000$00 de frete. A uma enorme discrepância entre ilhas, pois aqui não temos transportes públicos, não pagamos 40$00 de autocarro para nos deslocarmos, ou seja, 1000$00 em São Vicente dá, em média, 25 bilhetes. Aqui, 1/7 do frete, numa Hiace com 15 lugares.

P – Porque é que as equipas não correm atrás deste subsídio de transporte, por exemplo?

A.R.F. – Este já vem sendo feito, o problema está em arranjar quem os dê esse patrocínio. Infelizmente, parece que ninguém quer ajudar. Organizamos uma noite da Discoteca S’rré Negra, com o lucro conseguimos comprar 1 bola e 2 redes.

P – Não pensam em incentivar as pessoas e atletas a criarem uma escola de basquete na vila, como já foi feito no Porto Novo, por exemplo?

A.R.F – Teria que ser antes o incentivo da Direcção Geral do Desporto, porque lidar com crianças, sensíveis, frágeis, onde teríamos que ter preparadores físicos qualificados, para não corrermos o risco de provocar lesões graves nos filhos dos outros, teríamos também que ter em conta questões de ordem psicológica, entre outros problemas que a nossa auto-aprendizagem pudesse por em risco a saúde dos demais.

P – Os professores de Educação Física, não podia assumir esta parte?

A.R.F. – Poder podem, mas cada um é que sabe de si. Temos que ter também em conta que hoje, assumir qualquer coisa que seja, terá que ser remunerada, pois, nos dias de hoje e estando as coisas como estão, ninguém quer levar desaforo para casa, sem ser pago por isso. Dificilmente encontramos professores ou qualquer outro cidadão disposto a se sacrificar em condições como estas. Não há incentivos, não há materiais desportivos. Só para terem uma ideia, quando treinava a equipa do Rosariense, na Escola Secundária Suzete Delgado, antes do treino, púnhamos a procura de pedaços de Giz perto das janelas das salas de aula, para marcar no chão um cone, por exemplo.

P – Antigamente, pagava-se para pertencer a escola de futebol do professor Arlindo “Fodof”. Não seria uma hipótese?

A.R.F – Ao contrário do futebol, nós temos um défice de atletas, o que não acontece com o desporto rei. O nosso objectivo é “ganhar clientes”, digamos assim.

P – O que têm feito para “ganhar clientes”?

A.R.F – Eu e um amigo meu, Danilo Lima, também praticante da modalidade, temos um projecto em andamento, já com os pedidos de patrocínio feitos, de nome “Liprobasket” (Saiba mais clicando aqui)

P – Criar programas que incentivassem os pais a inscreverem os filhos nas vossas escolas e pagarem por isso, não seria um caminho. Como por exemplo, explicações, só quem tem boas notas pode treinar, incentivos escolares, amizades, ensinamento vários, que não apenas da modalidade…?

A.R.F – Como já tinha dito, isso não depende só de nós. Dependerá de voluntários disposto a sacrificar juntamente connosco, já que não há verbas para remunerar ninguém. Ainda por cima, da geração de 83/84, a dita “geração de ouro” do basquetebol em Santo Antão, o último a sair da ilha foi no ano de 2005. Todos foram estudar fora do país. Não ficou ninguém com esse tal espírito de sacrifício. Até 2009, aquando do regresso do primeiro a ilha, só se viu o basquetebol na Vila ir desaparecendo consideravelmente. A partir de 2009, começou-se a ver uma luz no fundo do túnel, pelo menos aqui na Ribeira Grande. Hoje, como o nosso regresso, queremos massificar o basquetebol na Ilha, de forma a não corrermos o risco de cair no mesmo erro no futuro e dar assim continuidade ao desenvolvimento desta modalidade.

P – Fala-nos um pouco desta geração 83/84!

Há quem possa falar melhor desta geração do que eu. Não quero correr o risco de não mencionar muitas coisas, porque quando apareceu o basquete a este nível, eu tinha apenas 13 anos. (Clique aqui se quer saber mais sobre esta Geração)

P – O que sentiste quando leste esta reportagem, no blogue do Porto Novo Basquetebol?

A.R.F. – Prefiro não comentar.

P – Porquê?

A.R.F. – Porque acho que deve-se respeitar o passado, de forma a unirmos todos os concelhos em prol desta modalidade, caso contrário, nada feito.

P – O que explica tanto sucesso e consequente abandono por partes das autoridades competentes?

A.R.F. – Além de não se ter dado continuidade a escola que se tinha criado, por não ter aparecido pessoas com o mesmo entusiasmo que nós, não somos do desporto rei.

P – E o prometido e já financiado pavilhão, há 10 anos atrás?

A.R.F. – A Chuva levou a primeira pedra (risos)

P – E aquele que foi feito em Ponta do Sol?

A.R.F. – Não foi um pavilhão e sim um recinto, mas a chuva levou as pedras todas (risos)

P – Qual o futuro do Basquetebol nesta ilha, tendo em conta todos os problemas aqui relatados?

A.R.F. – É bastante complicado. Eu tomei esta decisão de me candidatar a este cargo, a base da emoção e também porque não concordava com muita coisa que andava a ser feito pela anterior direcção.

A nossa juventude abusa do álcool. Há alturas em que se sente o hálito a álcool durante dos jogos. Antes jogavamos com vontade, hoje poucos fazem isso.

P – Mas antes haviam incentivos, como o Mike (treinador Americano), Jogos escolares, competições fora da Ilha. Isso não os pode estar a afectar? Quais as dificuldades do basquetebol vingar em Santo Antão?

A.R.F. – Os Professores não colaboram, não temos treinadores qualificados, câmaras e federação não colaboram… assim é difícil. Não há um espaço para praticarmos, tanto no Porto Novo, como aqui na Ribeira Grande. Dependemos da generosidade dos dirigentes da Escola Secundária Suzete Delgado, poucas pessoas interessadas em patrocinar, enfim, é um sacrifício enorme.

P – Para terminar, pedimos que enumere as metas a alcançar no seu mandato de 2 anos!

A.R.F. – 1 – O campeonato regional conta com apenas 3 equipas. Queremos 4. Não pensamos numa 5ª equipa, devido aos custos.

2 – Duas formações para árbitros, Duas formações para treinadores e workshops  vários a nível da ilha.

3 – Realização do “Liprobasket” a nível regional.

4 – Muito trabalho

P – Adelino, obrigado pela sua colaboração. Esperamos que o nosso povo seja mais solidário e vos ajude nesta caminhada, que já deu provas de ter asas para atingir grandes patamares a nível nacional. Um bem-haja e boa sorte no seu mandato.

Plurim, 29 de Janeiro de 11

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Criado para relembrar, reabilitar, recuperar, redescobrir o nosso concelho da Ribeira Grande, Ilha da Santo Antão, Cabo Verde, este blogue terá como propósito enobrecer, por mérito próprio, aquele que nos viu nascer, crescer e tornar em mais um valor nacional, reconhecidos por prós, ignorados por contras. "Quanto maiores são as dificuldades a vencer, maior será a glória." Ver todos os artigos de plurim

One response to “Entrevista ao Presidente da Associação de Basquetebol de Santo Antão – Adelino Fortes

  • Paulino

    Caro Adelino,

    Em primeiro lugar, para te dar os parabéns pela eleição e para te desejar muitos sucessos nesta empreitada. Sobretudo, que tenhas muita força e coragem e não te desanimares nunca, mesmo nos percalços e dificuldades que de certeza vais encontrar. Como se diz há muito, “home de sintedez ´n de quebrá nunca!”. O que estão a fazer tem uma importância muito grande a nível da juventude da ilha, que gostaria de ver mais a praticar desportos do que a “mandá cabeça pa trás”.

    Em segundo lugar, permita-me algumas sugestões:
    1º) Defina claramente onde querem chegar com o basket na ilha (qual o sonho, qual a visão, as metas que querem atingir). Parecendo muito simples, este passo é de extrema importância porque ajuda-nos a ter direcção e sentido;
    2º) Identifique quais áreas terás que dar prioridades para poder materializar esta visão (infra-estruturas? atracção de novos atletas? organização desportiva? competições? formação de dirigentes e técnicos? cooperação com outras entidades?);
    3º) Defina um plano para cada uma das áreas, identificando claramente o timming desejável de implementação e os recursos necessários (financeiros, humanos, materiais). Depois, à frente de cada item, coloquem o nome dos parceiros que vocês acham que podem contribuir (DGD? Câmaras? GOverno? ONG´s? Emigrantes? Equipas estrangeiras? Patrocinadores?…);
    4º) De seguida, distribuam responsabilidades (de contactos, preparação de fichas d eprojectos, organização, acompanhamento, etc.), entre os membros da equipa, conforme o plano;
    5º) Importante: definam e implementem mecanismos para avaliar a execução do plano (reuniões semansi? quinzenais? mensais? troca de e-mails?…).

    Não estou a falar de prepararem um documento de 150 páginas, um plano estratégico ou coisa parecida. Bastam duas folhas, com as informações que referi acima. E não têm que pedir a ninguém para o fazer por vocês: tem que ser fruta de uma reflexão interna, de um sentimento partilhado – apesar de ser recomendável ouvir a opinião de diversas pessoas, ok?

    Força lá com este sonho, no que eu puder ajudar contem comigo.

    Um abraço,
    Paulino

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